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Sobre vida e morte

Já faz um tempo que o ator Domingos Montagner morreu, e devo confessar que poucas vezes fiquei tão sentido e tocado com a morte de alguém que não me era próximo. Um desperdício de talento, de vida enfim, que saiu de cena no auge da carreira de forma tão inexplicavelmente simples.

Isso me fez filosofar internamente sobre a fragilidade das coisas, sobre a lâmina tão afiada em que vivemos nossos dias, equilibrados entre o aqui e o outro lado. A morte pode ter milhões de explicações, mas nenhuma conclusão lógica explica quando é a hora real em que nossa missão acaba aqui e começa em outro lugar. Religiões tentam nos mostrar os porquês; cientistas tentam cada vez mais adiar a partida, como se pudessem! Mas mortes como a de Domingos nos levam cada vez mais a pergunta “de onde viemos e para onde vamos?” a nos atormentar.

Claro que eu também não tenho nenhuma resposta conclusiva sobre o assunto, mas tenho algumas perguntas que podem indicar que tipo de vida você leva e quão perto da morte está. Por exemplo, quanta energia você gasta tentando ser perfeito? Quando tempo você desperdiça culpando os outros por problemas que você mesmo poderia resolver, e de forma tão prosaica? Quanto tempo faz que você só se preocupa com o “ter” e deixa o “ser” de lado? Quantos anos faz que você não vê um pôr do sol ou se emociona com a lua cheia aparecendo no horizonte? Quanto tempo e saúde você gasta tentando possuir coisas, adquirir riqueza e bens materiais que você nem sabe direito pra que servem, mas por puro status acha legal ter um?

Não minto, eu também faço parte da enquete acima. Pra mim, mais do que nunca, a morte é apenas uma passagem para um lugar melhor. Este não é o ponto. O xis da questão é o que eu estou fazendo de bom enquanto eu estou aqui para que a minha morte seja apenas isso, um apagar de luz aqui e um acender acolá?

Como já dizia Saramago, “a morte é a nossa amiga mais fiel; só ela nos acompanha por toda a vida, desde o nascimento”. Talvez seja esta a nossa única certeza em relação a um assunto tão tabu quando este. E o problema é que todos que participam deste evento não voltam pra nos contar.

(Marco Clerris - 51, foi redator publicitáro e atualmente é consultor de negócios no setor imobiliário, em Jundiaí, SP.)